Ujatoba_conversa

Conversa com a Jatobá recebe Eduardo Araújo

por Universo Jatoba

1º bloco

Rosana Jatobá – Boa tarde, seja muito bem vindo, começa agora mais um Conversa com a Jatobá. E hoje eu tenho a honra de receber aqui no estúdio o Eduardo Araújo. Essa música estourou no Brasil inteiro, até hoje é muito executada, já foi regravada por vários  artistas, ela se chama “O bom”. Você deve estar se lembrando daquele refrão que fala assim “Ele é o bom, é o bom, é o bom”. Eduardo, cadê esse refrão?

Eduardo Araújo – Esse refrão está no  estilo atual que a gente faz mais para o country music, a gente não fala muito em “O bom”, mas geralmente é uma parte lá que a gente deixa a plateia fazendo, né, a gente fica segurando e brincando. Essa música marcou muito a minha carreira.

Rosana Jatobá – Você estourou no cenário musical com essa música?

Eduardo Araújo – Exatamente, ela vem aí de década em década fazendo grande sucesso, agora mesmo tem uma novela em uma rede de muita audiência que tem uma criançada cantando. Parece que vendeu mais de 2 milhões de cópias. Quer dizer então que um negócio que passa tempos e tempos e a música “O bom” continua nas paradas.

Rosana Jatobá – Quem já regravou essa música “O bom”?

Eduardo Araújo – Na verdade “O bom” não tem muitas regravações, foi o “Vem quente que eu estou fervendo”. “O bom” é uma música que tem os grandes roqueiros como o Roger, que é um grande guitarrista, ele colocou essa música entre as músicas do século, o rock do século, ele colocou em primeiro lugar. Eu sei que um dos poucos que gravaram foi o Raul Seixas.

Rosana Jatobá – A Wanderléa não gravou essa música?

Eduardo Araújo – Não, a Wanderléa não gravou, Roberto não gravou, o Erasmo não gravou, porque o Erasmo sempre gravou as minhas músicas como o “Vem quente que eu estou fervendo”, é de minha autoria e ele gravou também. E até hoje o pico alto do Erasmo é o “Vem quente que estou fervendo”. Essa música “O bom” faz parte até de um currículo escolar, o pessoal conta a história e aí a criançada cria o seu título. Eu já fui convidado para ir em várias escolas e inclusive nas faculdades também para falar um pouco sobre esse movimento.

Rosana Jatobá – Da Jovem Guarda, não é isso?

Eduardo Araújo – Na verdade não é da Jovem Guarda, é do movimento do rock n’roll, infelizmente aqui no Brasil o brasileiro gosta de rotular tudo. Então é o único país onde o rock teve o nome de Jovem Guarda porque nos outros países todos, os Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley, é tudo rock n’roll, né. Aqui no Brasil ficou o movimento da Jovem Guarda.

Rosana Jatobá – Precisou abrasileirar, criar um nome de um movimento para mostrar a influência do rock na música?

Eduardo Araújo – Na verdade é o contrário, o rock estourou porque estourou mesmo no mundo inteiro, ele estourou aqui também.

Rosana Jatobá – Mas por que você acha que deram o nome de Jovem Guarda, eles precisaram criar um nome?

Eduardo Araújo – Na verdade naquela época foi uma valorização muito grande da juventude, tudo era jovem, as pessoas queriam vender produto jovem, a rádio passaram de Panamericana para Jovem Pan e por aí afora. Aí o programa que o Roberto apresentava também era “Jovem Guarda” e na mídia inteira se falava isso e terminou o gênero também virando Jovem Guarda. Jovem Guarda é realmente um gênero que não existe, você diz canta um Jovem Guarda e o cara não sabe o que é isso, ele vai ter que pegar uma música do repertório do Roberto, do Erasmo, do meu repertório para poder cantar.

Rosana Jatobá – Mas você então está dizendo  que o rock não se descaracterizou por causa da Jovem Guarda, pode até ter criado um estilo diferente, mas ele permaneceu aí reinando?

Eduardo Araújo – Nós não éramos na verdade os criadores disso, os criadores disso são os americanos, os Beatles, os ingleses. E nós apenas fazíamos algo parecido com eles, a gente criou aqui no Brasil um verdadeiro estilo de roupa, de comportamento, mas no mundo inteiro é a mesma coisa.

Rosana Jatobá – Houve uma revolução no comportamento, na música, na moda, né?

Eduardo Araújo – Não só musical, mas um comportamento de geração. Nós tínhamos uma geração que ela foi até a parte que chegou no Woodstock, a gente tinha simplesmente uma vontade de fazer música e cantar, sem nunca ter aquela conotação que era uma música política, a gente achava que o que a gente tinha que fazer era música.

Rosana Jatobá – E aí nesse embalo você também criou o “Vem quente que eu estou fervendo” ?

Eduardo Araújo – O “Vem quente que eu estou fervendo” foi uma música de muitas regravações, é uma das músicas que mais foi tema de grandes campanhas publicitárias e o Barão Vermelho gravou com um sucesso medonho. E quando a gente pensa que as pessoas estão esquecendo do “Vem quente que eu estou fervendo”, a música com quem grava estoura.

Rosana Jatobá – Ou seja, é uma música atemporal?

Eduardo Araújo – Atemporal.

Rosana Jatobá – Você estava pensando em que quando fez essa música “Vem quente que eu estou fervendo” ?

Eduardo Araújo – Eu estava em cima de um curral (risos).

Rosana Jatobá – Você estava falando isso para um touro (risos)?

Eduardo Araújo – Eu estava com o violão e meu irmão negociando um gado dele com um nordestino, ele era muito gente boa e os dois estavam tomando whisky e negociando e eu ali olhando, observando aquilo. E um falava “O meu gado é de primeira”, “Eu preciso refugar”. Você sabe o que é refugar? Tirar fora. “Eu preciso refugar umas vaquinhas que estão muito magras”, e aí meu irmão falou “Se refugar aí não tem negócio”. No fim ele falou “Quantas você tira?”, e ele respondeu “Vou tirar umas 30”, “30 é muito, não dá certo não, mas você pode tirar 10 e pode vir quente que eu já estou fervendo”. Aí eu falei ”  isso dá música.”

Rosana Jatobá – Uma coisa que começou lá no pasto. Então eu quero que você toque pra gente, todo mundo conhece essa música, várias gerações, meus pais, agora os meus filhos também com certeza vão ouvir e é um ícone da música.

Eduardo Araújo – É verdade.

Rosana Jatobá – Então vamos lá, Eduardo Araújo “Vem quente que eu estou fervendo” e você que está aí ouvindo o Conversa com a Jatobá nem imaginava que essa música foi composta no curral. Daqui a pouco no Conversa com a Jatobá, a gente conversa mais um pouquinho com o Eduardo Araújo. Você não sai daí, até já!

2º bloco

Rosana Jatobá – Estamos de volta com o Conversa com a Jatobá, você está ouvindo aí a composição “Lado a lado” que pertence a Gene Austin e Otto Nielsen. Eles são integrantes da banda do Eduardo Araújo. Eduardo Araújo é um dos grandes ícones da Jovem Guarda no Brasil. Essa pegada é mais de música country, que é uma música que tem muito a falar sobre romantismo.

Eduardo Araújo – Esse é o meu gênero musical de uma época para cá, já tem uns 20 anos que eu estou nessa praia.

Rosana Jatobá – Por que você saiu do rock e agora está executando música country?

Eduardo Araújo – É muito simples, eu voltei às origens porque na verdade o rock n’roll é uma invenção da country music com o blues e aí nasceu o rock n’roll, o rockabilly, tudo nasceu da country music. Então é muito fácil, quem está cantando rock faz country music, já tem a pegada.

Rosana Jatobá – E você também que foi criado na fazenda, para você é muito natural esse universo da música country e estar ligado assim com a natureza.

Eduardo Araújo – Eu sempre estive com ele dentro de mim, mesmo na época que eu seguia o rock n’roll eu queria saber de onde vinha essa música. E aí eu descobri a country music, meus ídolos vieram da country music, Elvis Presley veio da country music e por aí afora. Muitos foram até o rock e voltaram como o Johnny Cash, que era um cantor de rock do lado do Elvis Presley, como um grande ídolo.

Rosana Jatobá – Você está falando então das influências internacionais, esses grandes músicos.

Eduardo Araújo – Exatamente.

Rosana Jatobá – Agora no Brasil, quem te influenciou na sua música?

Eduardo Araújo – Aqui foi o Luiz Gonzaga.

Rosana Jatobá – Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, aliás ele deixou um legado, uma herança super importante para a música brasileira.

Eduardo Araújo – Gravei muitas músicas do Luiz Gonzaga, principalmente na época que lançamos no Brasil a música soul, eu e o Tim Maia. O Tim trouxe dos Estados Unidos essa coisa que tinha recentemente começado lá. Era uma música que começou na Broadway mesmo em Nova York e de repente ela se espalhou nos Estados Unidos e chegou até o Brasil. O Tim foi quem trouxe as primeiras músicas, Aretha Franklin eu conheci através do Tim. E aí nós fizemos um disco chamado “A onda é Boogaloo” com várias versões desse pessoal.

Rosana Jatobá – Toca um pedacinho de alguma música daquele momento.

Eduardo Araújo – Eu gravei uma música agora no estilo country que foi uma criação minha, pouca gente sabe disso, que é uma música do Tim Maia.

Rosana Jatobá – Maravilha, então a composição é do Tim Maia.

Eduardo Araújo – Ele fez pra mim, lançou nesse disco “A Onda é Boogaloo”, praticamente a primeira música de autoria mesmo de um autor brasileiro no estilo soul, foi essa musica aí “Você”. Eu gravei e foi interessante porque durante a produção a gente ensaiava no salão do hotel Danúbio e um dia o Tim Maia me mostrou a música. Ele disse que a letra não estava pronta, mas eu falei “Mostra aí de qualquer jeito”. E ele disse eu inventei um negocinho “Você, não lava este pé e este seu chulé é muito fedorento, baby” (risos). Foi a última música que ele ficou a noite inteira acordado e no outro dia cantou a música.

Rosana Jatobá – Aí ele cantou a versão que hoje ainda é executada Brasil afora.

Eduardo Araújo – Com a letra certa.

Rosana Jatobá – Mas essa do chulé é engraçada, né.

Eduardo Araújo – O Tim era muito do som da música, fazia uma letra que não tivesse o som junto e realmente fica bom.

Rosana Jatobá – Você chegou a ver a interpretação do Tiago Abravanel como Tim Maia aqui no teatro em São Paulo?

Eduardo Araújo – Não, não fui ver.

Rosana Jatobá – Nossa, brilhante!

Eduardo Araújo – Ele me lembra muito o Tim, o jeito do Tim, ele é um grande ator realmente, um cara fabuloso. É incrível como ele assimilou bem essa coisa.

Rosana Jatobá – Eu tô te perguntando, porque eu queria saber qual é a sua impressão do Tim Maia, era uma pessoa tida como muita controversa.

Eduardo Araújo – Era um bandido.

Rosana Jatobá – Um bandido?(risos)

Eduardo Araújo – Bandido, duas prisões, uma nos Estados Unidos e outra aqui, só se falava em filho, era um cara bem marginal, mas aos pouquinhos foi se ajeitando. No fim ele ficou até religioso, entrou na religião.

Rosana Jatobá – Teve a influência de uma seita?

Eduardo Araújo – É, acho que eu influenciei muito ele.

Rosana Jatobá – Você dava conselho para ele?

Eduardo Araújo – Muito, muito.

Rosana Jatobá – O que você dizia para o Tim Maia?

Eduardo Araújo – Eu me casei com a Sylvinha, ele foi morar já em São Paulo. Quando tinha alguma coisa a primeira pessoa para quem ele ligava era pra mim. Um dia ele me ligou querendo que eu arrumasse para ele umas vaquinhas. Ele comprou um terreno e estava construindo uma casa. Aí eu falei “Tim, não é mais fácil você comprar o leite?” Eu vou fazer o seguinte: vou te dar de presente um terninho de vaca, um reprodutor e duas vacas, isso aí chama terno. Meu pai criava um gado patuá pequeninho. Aí eu botei na caminhonete e o telefone não párava. Eu ia ensinando ele, todo dia ele me ligava para saber de uma coisa, como é que funcionava isso, como é que funcionava aquilo. Aí depois descobriram que ele tinha feito a casa dele num terreno de outra pessoa. Um cara completamente na contramão.

Rosana Jatobá – Todo irregular?

Eduardo Araújo – Tem uma história muito interessante dele, ele me ligou porque o primeiro show que ele fez foi em Santos. Ele gostava desse cantor, Almir Ricardo, que vendeu um show do Tim Maia. Quando ele desceu aquela serra de Santos, chegou ali tinha uns outdoors escrito assim” Almir Ricardo bem grande”, “Apresenta Tim Maia”. (bem pequeno)

Rosana Jatobá – Ficou mordido.

Eduardo Araújo – Mordido, ele não fez o show, voltou para trás, os caras quebraram o ginásio inteirinho e o Almir Ricardo ali no meio só levando pedrada.

Rosana Jatobá – Nossa, muita história para contar, né. Que outra composição você lembra desta época ?

Eduardo Araújo – Nessa época eu fiz muita coisa, tinha músicas maravilhosas. Depois do Tim Maia, eu gravei muita música do Cassiano também. O Cassiano é um grande compositor da música soul do Brasil, fez muitas composições, o Tim Maia gravou muito, ele mesmo gravou. Posso fazer uma aqui para você uma releitura de uma música que é “Ave Maria no Morro”, a maior vendagem do Brasil, ninguém tinha vendido tanto disco naquela época.

Rosana Jatobá – Do rock da Jovem Guarda para a música country. Nós estamos aqui no Conversa com a Jatobá recebendo Eduardo Araújo, daqui a pouco a gente volta, você são sai daí que tem mais música de qualidade para você. Até já!

3º bloco

Rosana Jatobá – Aqui no Conversa com a Jatobá você está ouvindo “O Violeiro toca”, uma composição do Almir Sater e do Renato Teixeira, na voz cavernosa do Eduardo Araújo. Que voz linda que você tem, você canta com o coração, com emoção, com paixão!

Eduardo Araújo – Essas músicas desses dois compositores aí, eu faço o meu arranjo, eu faço o que eu gosto, a maneira que canto. Eu gosto mesmo de colocar a alma na coisa.

Rosana Jatobá – Essa música é uma das 14 do novo CD que se chama “Lado a lado” que vocês estão lançando ainda esse mês.

Eduardo Araújo – Lançando daqui a pouco, logo, logo, se Deus quiser. É só chegar da fábrica que vai estar nas lojas.

Rosana Jatobá – São 14 músicas, sendo que muitas são regravações de antigos sucessos e alguma parcerias com artistas conhecidos no Brasil.

Eduardo Araújo – Na participação do meu DVD que eu gravo dia 13 de novembro lá no Palladium, em Belo Horizonte, eu vou ter a participação já confirmada do Renato Teixeira e do Sérgio Reis.

Rosana Jatobá – Nossa, vai ser um festão com o Sérgião, o rei da música sertaneja.

Eduardo Araújo – Exatamente, meu amigo.

Rosana Jatobá – E vocês se sentam assim numa roda de viola? Deve ser uma festa.

Eduardo Araújo – Na verdade nós nunca sentamos. O Renato Teixeira foi uma vez comigo para a fazenda e lá nós fizemos um show e nessa época a Prefeitura da cidade contratou por meu intermédio o Luiz Gonzaga. Eu fiz o encontro de Luiz Gonzaga e Renato Teixeira. Ele é apaixonado também pelo Luiz Gonzaga. O Luiz Gonzaga ficou muito feliz por ter conhecido ele também. Aí a gente lá tocou alguma coisa, eu peguei o violão cantei “Asa Branca” e o Renato Teixeira também. Agora eu e o Sergião, a amizade nossa é um negócio que você não acredita. Eu conheço o Sérgio desde que eu cheguei em São Paulo, a gente catitoava música juntos. Um dormia no ombro do outro de tão cansado, de passar a noite, que antigamente a gente chamava de catitoar. Você ia catitoar, chegava lá e ficava quietinho esperando e aí o locutor chegava, você entrava e ele falava “Apresenta a sua música”. O Moacir Matias que está aqui com a gente conhece, porque o Matias é daquela época. O Moacir levava o Roberto Carlos para todo lugar. Então eu e o Sérgião tínhamos uma amizade desde aquela época, mas nunca sentamos para tocar juntos, vai ser a primeira vez. Às vezes eu tô num show dele e ele me convida, eu subo no palco e toco a gaita.

Rosana Jatobá – Fica aqui um convite, de repente ele está ouvindo o nosso programa. Convida aí o Sérgio Reis.

Eduardo Araújo – Grandão, você precisa estar aqui junto comigo pra gente cantar “O Menino da Gaita”, cantar “O Violeiro Toca” junto com o Renatão também, o Renato Teixeira. Isso vai acontecer, depois de lançar o DVD nós vamos fazer esse encontro.

Rosana Jatobá – É isso aí. Eduardo, você tem uma carreira  muito sólida, faz shows pelo Brasil inteiro, está lançando um novo CD, tem gravação de DVD e ainda encontra tempo para cuidar de cavalos.

Eduardo Araújo – É o meu hobby, eu não viveria sem eles, como não viveria também sem a minha carreira, as coisas tem que se juntar, né.

Rosana Jatobá – Que tipo de cavalos você cria?

Eduardo Araújo – Olha, eu crio três raças de cavalos, meus pais criaram mais. Hoje eu crio o Mangalarga Marchador, que é uma tradição de família, crio o Jumenta Pêga,  minha mãe foi uma das maiores criadoras do Brasil de Jumento Pêga, eu dou continuidade ao trabalho dela, hoje ela está com 95 anos e mora na fazenda até hoje. E eu crio o Anglo-árabe, que é um cavalo que não tem nada a ver com esses aí, mas eu sempre falei na minha vida que o dia que eu criasse uma outra raça, eu queria criar o cavalo que é o mais bonito do mundo, que é o Anglo-árabe, sem dúvida. E eu crio o Anglo-árabe.

Rosana Jatobá – Agora é interessante que você lida também com uma técnica de melhoramento genético de uma raça.

Eduardo Araújo – Exatamente, eu trabalho nisso há muitos anos. Para você ter uma ideia, quando eu comecei a criar, meu pai já criava jumentos e eu tinha uma tropa bem pequena. E eu consegui fazer com que esse jumento crescesse até 1,50 m de altura e eles são lindos, bonitos, hoje eu tenho o jumento que eu chamo de “Rei dos Jumentos”, chama-se Congo da Aliança, a coisa mais linda que pode existir, é o jumento morfologicamente perfeito, marcha feito uma máquina e tem uma coisa bonita que Deus deu para ele que é a cor, ele é pampa de preta, uma coisa linda, né.

Rosana Jatobá – Você enfrentou durante esse projeto algum tipo de obstáculo, de crítica por estar influenciando no tipo de animal?

Eduardo Araújo – Não, na verdade essa coisa de genética ela não existe, isso é uma alquimia. Geralmente o pessoal que sabe fazer isso muito bem e graças a Deus eu sei fazer também, são verdadeiros alquimistas porque você tem que saber que essa fêmea vai dar um bom produto com esse macho para o melhoramento da raça, sua espécie, como você quer que seja. Porque às vezes a raça vai até um determinado ponto, quando você vê que você pode evoluir, melhorar mais ainda.

Rosana Jatobá – Sem isso representar um prejuízo para a espécie, ao contrário.

Eduardo Araújo – Ao contrário, isso aí é muito ao contrário. Só faz é bem, essas raças vêm evoluindo cada vez mais e se internacionalizam. O Jumento Pêga hoje é o jumento mais perfeito do mundo. O Mangalarga Marchador está no mundo inteiro. O Anglo-árabe é um cavalo francês, de registro mais antigo do planeta, Napoleão Bonaparte criou um cavalo de guerra e aí surgiu a raça Anglo-Árabe.

Rosana Jatobá – E você também cria gado?

Eduardo Araújo – Eu crio, meu pai tinha um gado que é um gado mocho que deu origem a muitas raças como o Tabapuã, por exemplo. Depois recentemente eu fiquei sabendo que esse gado foi para a Austrália e lá hoje ele é reconhecido como o Brahman, mas tem o sangue também da nossa origem. Eu hoje sou praticamente um criador de Brahman, mas o Brahman Aliança que é o nosso prefixo.

Rosana Jatobá – Eu pergunto porque aqui no Conversa com a Jatobá a gente fala sobre questões ambientais. Nós temos o maior rebanho do mundo e isso significa também um grande impacto para  do meio ambiente. O que você acha dessa questão, de muitos pastos sendo feitos em áreas desmatadas, representando um grande prejuízo para as nossas florestas, para a nossa biodiversidade?

Eduardo Araújo – Eu acredito que hoje nós temos um tipo de fazendeiro diferente, um fazendeiro que é um ambientalista, ele sabe preservar o que pode ser desmatado e o que deve ser preservado. Antigamente a gente não tinha isso, derrubava tudo e hoje esse pecuarista brasileiro, que é considerado o maior do mundo, ele tem essa coisa de conservar dentro do próprio ambiente em que ele está e que ele está lucrando. Eu acredito que ainda não chegamos a perfeição, mas estamos trabalhando para isso e você pode ver regiões que eram muito quentes, pouca chuva, hoje com essa consciência que está existindo na natureza, essas fazendas hoje estão produzindo mais porque está chovendo mais nesses locais. Porque a preservação da mata, por exemplo, em volta dos rios é muito importante. Então acho que tudo pode ser feito com equilíbrio, sem precisar ser uma coisa devastadora. Se continuar devastando mesmo, vira um deserto. Eu acredito que os desertos que existem no mundo eles foram tão mal explorados que se tornaram desertos.

Rosana Jatobá – Exatamente.

Eduardo Araújo – E essa desertificação já existe no Brasil e que vem de lá do norte e chega até o sul do Brasil.

Rosana Jatobá – Áreas que não produzem mais, né, o solo está infértil, estéril.

Eduardo Araújo – E quando pega aquela areia, o vento sopra e acaba com tudo. Então eu sempre tenho a minha consciência que o bom homem do campo, ao qual eu fico feliz de estar junto, ser um dos cantores do Brasil que canta para o homem do campo, essa consciência já existe. Não corremos risco de modo algum  do desmatamento desenfreado, muito pelo contrário, quem faz isso são esses grileiros de terras que não tem consciência, invadem as propriedades e realmente devastam a propriedade. Eu tive uma propriedade minha invadida por sem- terra e a primeira coisa que eles fizeram foi exatamente isso, acabar com tudo, as árvores que existiam em volta dos rios, essa consciência precisa ter também. Acho que o Brasil é tão grande que não precisa disso, é só ter um governo bom que queira realmente segurar com harmonia este nosso meio ambiente.

Rosana Jatobá – Muito bem, já que a gente está falando então de homem do campo, vamos executar “Menino da Gaita”, do Sérgio Reis, uma composição que está no novo CD “Lado a lado” do Eduardo Araújo. Daqui a pouco a gente volta no Conversa com a Jatobá, até já!

4º bloco

Rosana Jatobá – Eu quero te perguntar, o Brasil inteiro acompanhou o seu relacionamento com a Sylvinha, que era também um dos grandes nomes da Jovem Guarda, foram mais de 40 anos juntos, 39 casados…

Eduardo Araújo – Foram 39 casados e dois de namoro.

Rosana Jatobá – Como é que está o seu coração hoje?

Eduardo Araújo – Meu coração…na verdade a Sylvinha está nele sempre, nunca vai sair do meu coração. Na verdade eu não penso assim em um relacionamento, mas tudo pode acontecer, quem sabe, né.

Rosana Jatobá – Você está aí para rolar na grama se quiser?

Eduardo Araújo – É (risos).

Rosana Jatobá – Eu te pergunto sobre a Sylvinha porque você deu uma declaração muito interessante: “Eu era um chucro, eu costumava dizer que eu era um leão com juba e tudo. Ela cortou a minha juba, eu virei um gatinho. Graças a ela que foi me fazendo aos poucos com muita paciência, pude ver uma outra realidade”. Essa é a declaração que você fez com relação a Sylvinha.

Eduardo Araújo – Verdade.

Rosana Jatobá – Como é que foi essa mudança por causa da Sylvinha?

Eduardo Araújo – Eu era assim um cowboy mesmo, tipo aqueles cowboy do Texas, muito bravo, eu sou leonino e a Sylvinha era do signo de virgem, e eu falo isso porque foi verdade, ela realmente me colocou em uma forma diferente, ela cortou minha juba.

Rosana Jatobá – Amansou o leão?

Eduardo Araújo – Amansou o leão, o leão ficou um gatinho.

Rosana Jatobá – E qual era o segredo desse relacionamento que durou tantos anos?

Eduardo Araújo – Eu digo para você o seguinte, eu acho que nem existe segredo. As pessoas, em primeiro lugar, têm que se respeitar e principalmente esse lado de cada um fazer uma coisa, o outro apoiar. Eu nunca cheguei para a Silvinha e falei “Você não vai fazer isso, você não vai fazer aquilo”. Ela sempre quis seguir a carreira dela e eu dei o maior apoio e ela também. A gente não tinha brigas, tinha uma discussãozinha boba. Mas eu costumo dizer que geralmente os casais brigam, separam, sai de casa, a gente nunca se separou, nunca saiu de casa, sempre juntos, uma vida maravilhosa. Uma mulher espetacular, sabia ser dona de casa como ninguém, mas quando subia num palco, também era uma artista de primeira linha.

Rosana Jatobá – Uma voz marcante.

Eduardo Araújo – Uma voz marcante e fabulosa. A gente passou momentos difíceis, acho que essa música “Lado a lado” fala muito isso, onde a gente passou altos e baixos de todas as formas, problemas que sempre apareciam e nós vencemos todos eles, passamos por cima de todos. Eu acredito que hoje ela está muito melhor do que estaria aqui, é uma pessoa muito espiritualizada, a gente se curte até hoje.

Rosana Jatobá – Vocês têm ainda uma conexão?

Eduardo Araújo – É a gente tem uma conexão.

Rosana Jatobá – E como é que você fez para tentar superar a morte da Silvinha? O que te ajudou a seguir em frente?

Eduardo Araújo – Na verdade ela mesma me preparou para isso, porque ela teve um câncer, o câncer era  fatal, 4 anos, ela nunca ficou sem saber. De cara ela ficou sabendo que tinha um câncer, cuidou do câncer, ela disse: “Não vou morrer agora não”. Ela ficou 12 anos.

Rosana Jatobá – Lutando contra o câncer de mama?

Eduardo Araújo – Lutando contra o câncer de mama. Ela às vezes saia da quimioterapia para um estúdio gravar, ninguém conseguia entender como. Nesse período então eu deixei de fazer muita coisa, muito show para ficar perto dela. Nós criamos até um show que chamava “Os 40 anos da Jovem Guarda” pra gente poder estar fazendo o show juntos.

Rosana Jatobá – E nesse show que vocês fizeram juntos, vocês cantavam, executavam várias canções da Jovem Guarda?

Eduardo Araújo – Só música da Jovem Guarda.

Rosana Jatobá – Foi um sucesso incrível?

Eduardo Araújo – Gravamos um DVD em um navio chamado “40 anos de Jovem Guarda e Eduardo Araújo”.

Rosana Jatobá – Agora a sua nova empreitada é um livro “50 anos de carreira do Eduardo Araújo”, o livro que vai se chamar “A verdadeira história do rock n’roll no Brasil”. Aí você vai contar tudo, vai falar também de outros artistas, vai falar alguma coisa do Roberto Carlos?

Eduardo Araújo – Claro, o Roberto é uma pessoa que faz parte do livro porque ele é um personagem dessa história, um dos principais da história, a gente tem que falar, é claro.

Rosana Jatobá – Mas o Roberto Carlos tentou impedir que um outro livro fosse publicado alegando que iriam invadir a privacidade dele. No seu livro ele corre esse risco?

Eduardo Araújo – De jeito nenhum, eu tenho um respeito pelas pessoas e não faria isso nunca, eu não preciso desse sensacionalismo. Eu acho também que as pessoas deveriam respeitar mais a vida particular da pessoa. O que eu conto do Roberto são coisas incríveis que aconteceram.

Rosana Jatobá – Pitorescas?

Eduardo Araújo – Não, tudo da nossa carreira. A gente na divulgação do Carlos Imperial, o Clube do Rock.

Rosana Jatobá – O Jerry Adriani?

Eduardo Araújo – O Jerry é um pouquinho depois. É mais o Tim Maia, o Roberto, o Erasmo.

Rosana Jatobá – Você conta situações que vocês vivenciaram juntos?

Eduardo Araújo – É, quando eu cheguei no Rio, como é que eu conheci cada um e como é que eu senti a presença de cada um, como é que eles eram. O Wilson Simonal, por exemplo, era incrível, eu falo muito dele e conto muita história engraçada do Wilson Simonal porque ele era uma pessoa incrível também. E depois o Tim Maia, outra figura incrível.

Rosana Jatobá – Agora é verdade que o Roberto Carlos recebeu muitos “não” no início da carreira dele?

Eduardo Araújo – Muitos.

Rosana Jatobá – E você acompanhou tudo?

Eduardo Araújo – Tudo, eu estava junto.

Rosana Jatobá – Que incrível, hoje ele é esse rei.

Eduardo Araújo – Eu acho que se eu fosse o Roberto, eu tinha até desistido, você vai ler meu livro e você vai ver. Tem horas lá que você fala “Não é possível isso acontecer”. Ele tinha um cara que sempre acreditou nele e dava força e esse cara falava “Eu sou o Carlos Imperial, eu sei o que você representa”. Eu acho que era um cara vidente que tinha um olho e deu essa força para ele. Eu conto essa história porque é muito interessante, eu acompanhei junto.

Rosana Jatobá – No seu show você executa alguma música do Roberto?

Eduardo Araújo – Não, eu não canto música do Roberto. Eu canto uma música minha que o Roberto gravou.

Rosana Jatobá – Ah, é? Qual é?

Eduardo Araújo – É o “Com muito amor e carinho”.

Rosana Jatobá – “Então vamos terminar o nosso programa com essa música “Com muito amor e carinho”. Ela está nos shows?

Eduardo Araújo – Ela faz parte do show, é uma música que vai entrar no DVD, é uma música que entra no CD também.

Rosana Jatobá – Vamos executar um pedacinho para os nossos ouvintes, eu quero deixar um beijo especial,  agradecer a você e `a sua banda pela presença aqui no Conversa com a Jatobá.

Eduardo Araújo – Eles são meus amigos, meus parceiros. O Gene Austen é um grande cantor também, tem sua carreira sozinho, se esses caras cantarem, eu não posso cantar.

Rosana Jatobá – Ofusca o seu brilho (risos).

Eduardo Araújo – Ele canta muito, eu agradeço e tenho um privilégio muito grande de tê-los comigo.

Rosana Jatobá – E eu gostei muito de receber vocês aqui no programa.

Eduardo Araújo – Muito obrigado, eu quero agradecer você também, você é muito simpática, entrevista muito bem, parabéns.

Rosana Jatobá – Muito obrigada.

Eduardo Araújo – Parabéns meu grande amigo, Jadir.

Rosana Jatobá – Conhece tudo de música o Jadir.

Eduardo Araújo – E queria agradecer a Renata e agradecer também o Matias, a Tânia, que está aqui comigo e é a minha manager, o Moacir Machado faz parte dessa história do meu livro. Ele é um cara que pode ser testemunha de tudo que eu falei.

Rosana Jatobá – Então vamos lá. E é “Com muito amor e carinho”, o nome dessa música do Eduardo Araújo, que foi regravada pelo rei Roberto Carlos, que a gente termina o Conversa com a Jatobá de hoje. Um beijo grande para você que está aí nos prestigiando, semana que vem tem mais. Uma ótima semana pra todo mundo, tchau gente!

Veja o vídeo e ouça a entrevista aqui.

Fique Atualizado!

Insira aqui o seu email para receber gratuitamente as atualizações do Universo Jatobá!

Quero receber!