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Só nesse país mesmo!

por Pagan Senior

Saltou para cabecear, mas ao invés da bola cabeceou a cabeça do adversário. Caem os dois, um levanta segurando a fronte, o outro fica deitado, sangrando no couro cabeludo. Coisas que acontecem num jogo de futebol. O ferido sai de campo, é atendido pelo médico, volta em pouco tempo com uma bandagem protegida por uma touca.

Segue o jogo; passados alguns minutos a câmera foca a nuca do jogador de touca e flagra um filete vermelho escorrendo abaixo da touca. Fico pasmo com a qualidade da imagem e a potência da lente: 60 metros ou mais e pega a gotinha de sangue se esgueirando… Sangue em HD, penso maravilhado.

A poucos passos de distância de mim ouço o urro:

– Só neste país mesmo!!!

– O quê? Pergunto.

– O cara sangrando em campo. Só neste país mesmo!!!!!!

Quem falava, com a boca crispada de ódio, era Diogo – o Diko – brilhante executivo do mercado financeiro, na faixa dos 40 anos. Recordo-me perfeitamente bem quando, há cerca de 10 anos, li o rascunho de sua aplicação a uma universidade americana para reivindicar uma vaga no MBA. Contava seu percurso e suas aspirações. O que me impressionou à época foi uma frase que usou: “Quero voltar ao meu país e fazer a diferença”.

Pois bem. Foi aceito, cursou com brilho, voltou e hoje contribui sim, com seu esforço, sua aplicação no trabalho e vai construindo sua vida. Mas será que era isso o que ele queria dizer com “quero voltar ao meu país e fazer a diferença”? Tenho certeza que não.

O que faria a diferença? Algo que pudesse mudar os valores dos demais. Um professor, um pesquisador ou mesmo um político. Alguém para dar o exemplo aos jovens, alguém que inspirasse os demais, que os fizesse se mover. “Só neste país mesmo!!!” é uma definitiva declaração de desistência. Onde foi parar aquele idealista visionário que queria fazer a diferença? O que o tornou cético desse jeito?

Minha desconfiança recai sobre um negativismo destrutivo que tomou conta da grande imprensa, um denuncismo impiedoso e sem equilíbrio, sem “o outro lado”. Uma imprensa que escolhe uma “verdade” e a assume como se verdade fosse. E envenena corações e mentes a ponto de destruir gerações de idealistas como Diko. Quem deveria estar se habilitando para em breve governar este país senão os homens de 40 anos bem formados?

Razão tem nosso iletrado mas lúcido ex-presidente- tão achincalhado pela “inteligentzia”- que, em meio às manifestações de junho, em palestra a jovens estudantes dizia: “Os políticos não valem nada? Não abandone a democracia, entre VOCÊ para a política.”

Comentei com um amigo meu – por acaso especialista em marketing – minha visão desse papel nefasto que a imprensa involuntariamente desempenha manipulando manchetes e chamadas, ressaltando a possibilidade negativa dos fatos. Contei o caso do jogo de futebol, a qualidade do HD e o ódio e descrença que identifiquei na exclamação do jovem amigo. Seu comentário foi contundente:

– É estratégia de venda de jornal. O negativo, o escândalo, vende!

Então é isso? Para se vender mais jornal, para se prender mais alguns segundos a atenção de um telespectador aumentando o índice de audiência e com isso o valor do segundo de comercial, sacrifica-se a alma de gerações inteiras? Enche-se de amargor as bocas de nossos possíveis futuros líderes?

Longe de mim cogitar qualquer restrição à liberdade de imprensa, que tem que noticiar, denunciar, comentar; mas é esse o jogo? No futebol, quando um jogador sangra ou apenas se machuca e fica deitado, o jogo para e ele é socorrido, pois um valor maior – a integridade física de um ser humano – ficou em risco. E essa geração inteira envenenada, amargurada e comprometida pelo ceticismo não é um valor maior em risco?

Ainda com esta crônica no forno aconteceu de eu assistir a um outro jogo de futebol pela televisão. E eis que ao término do jogo, durante as entrevistas, me aparece o jogador da foto acima. Um curativo no supercílio e a gota de sangue escorrendo.

E não era “só neste país mesmo!”. Desta vez num grande centro europeu, aliás, onde se pratica o melhor futebol do mundo. Por pura provocação enviei a foto ao Diko por SMS, com a legenda: “Não é só neste país!”. Ao que ele me respondeu:

– Nosso país é um lixo e você sabe!

– Nããão! – retruquei.

E aí ele encerrou a conversa:

– Lixo, lixo, lixo.

Fiquei olhando a foto e percebi que o sangue escorrera como uma lágrima. Viajei nessa lágrima e a assumi como minha. Lágrima minha pela desistência tão precoce do Diko, pelo amargo que habita sua boca, pela sua desesperança, pelo vazio de líderes no futuro desse nosso país. Lágrima de tristeza pela tristeza do Diko. E de tantos outros como ele. Tão jovens e já desenganados. Devia ser proibido.

 

Pagan Senior é engenheiro civil, com atuação institucional na área de Coleta Seletiva e Reciclagem na Cidade de São Paulo. É também ator diletante.

Pagan Senior escreve às quintas-feiras aqui no Universo Jatobá.

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