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Saudade do que não tive

por Pagan Senior

Já a conhecia; a cada encontro era aquele turbilhão, vendaval, sei lá. Ela vinha lá da terra dela e nada ficava parado à sua volta, tudo e todos tinham que se movimentar, mobilizar, correr para poder acompanhá-la. O tempo passou, os encontros rarearam, ela parou de aparecer por essas bandas. Notícias esparsas.

Até que uma oportunidade apareceu e fui ao seu paradeiro. Lá no pedaço dela. E é aí que a coisa pega. Aquilo que aqui era um vendaval, lá é um terremoto, um tsunami, um cataclisma.

Mas que graça! A diferença é que jorra luz por toda parte; a cada movimento seu, um jorro de luz; a cada tomada de fôlego, um jorro de luz; a cada opinião sua, um jorro de luz. Como é que pode tanto vigor, tanta alegria, beleza, graça, inteligência, participação? Foram horas e horas de encantamento, trocas de experiências. Nunca para? E nem quero que pare, quero mais e mais! Como permitir que isso cesse? O desejo é de absorção maior e maior. Um aperto, um abraço, uma relação sexual resolveria? Afinal uma relação sexual é uma tentativa de conquistar o outro para si, uma forma de se apropriar. Não, acho que nada basta. Nada bastaria, então me contentei em olhar, sorrir, admirar, tocar…

Na despedida me presenteou com seu primeiro romance, um pequeno livro com uma grande dedicatória para mim. Dois dias depois abri o livrinho, que começa também com uma dedicatória: A Antonio, Maria José, Ubaldo e Francisca, que me presentearam Ernesto e Mariana, meus pais. Parei, tocado. Que lindo começo! O romance é centrado em suas vivências com seus avós, em particular um avô seu, e para isso ela expõe um universo que comecei a percorrer devagar. Ia à casa do avô quase todos os finais de semana e lá explorava não só o afeto e os ensinamentos de seu avô, como também os cantinhos e as coisinhas que significavam para ele e que passaram a significar para ela, os pensamentos e manias dele, que chegavam a ela como quebra-cabeças para serem desvendados ao longo do entendimento que só vem com o correr da vida.

Sem afastar os olhos do livro, afastei minha alma dele e viajei para longe. Como será que é isso? Como é ter avós, conviver com eles, descobrir seus segredos, ouvir suas histórias, duvidar delas, encontrar o caminho do meio entre a realidade e a fantasia, a credulidade e a dúvida, se deixar iluminar pelo passado deles e com isso despertar o futuro à frente?

Não tive como evitar. Fui entristecendo, sendo banhado pelo sentimento de que algo eu perdi e nunca mais poderia recuperar. Nem sabia que tinha perdido. Sabia que não tinha tido avós, que eles, durante a guerra, foram chacinados pelos tiros, câmara de gás, fornalhas, fome ou doenças; tanto faz. Mas sempre enxerguei esse fato como eles tendo sido privados de uma vida à frente muito injustamente, mas nunca tinha enxergado como uma perda minha.

Ai que saudade do que nunca tive.

 

Pagan Senior é engenheiro civil, com atuação institucional na área de Coleta Seletiva e Reciclagem na Cidade de São Paulo. É também ator diletante.

Pagan Senior escreve às quintas-feiras aqui no Universo Jatobá.

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