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Sabedoria canina

por Pagan Senior

Não é exatamente minha especialidade a psicologia, mas, como de médico e louco cada um tem um pouco, vez ou outra faço lá minhas incursões.

Uma das reconhecidas maneiras de se pesquisar as origens de determinado comportamento é a repetição. Identificar determinado comportamento, descobrir a sensação, a emoção que o acompanha, e buscar o episódio anterior em que estes “sintomas” ocorreram. Isto feito, mais uma respirada funda e mais uma busca a um episódio mais anterior ainda.

E de repente – não, não é de repente e, sim, depois de um trabalhoso processo de sucessivas regressões – chega-se a um episódio, geralmente da infância, em que se pode dizer que foi a primeira vez que essas emoções ocorreram. E em tal episódio, e também graças à distância, podemos ver direitinho quem fez o quê, que emoções foram despertadas e que reações tivemos.

Essa reação é exatamente o que nos foi possível fazer naquela ocasião, a solução possível para aquela situação com os recursos disponíveis naquela idade. Saber isso é uma ajuda muito grande para a compreensão dos outros e acima de tudo de si próprio.

Outro dia tive uma reação absolutamente desmedida diante de determinada pessoa e situação. Fiquei perplexo por perceber que “alguém” com quem eu não concordava emergiu e tomou conta de mim – e não só – se sentindo “cheio de razão”.

Passado o furor do momento e percebendo o tamanho do estrago que tinha feito na pessoa objeto da minha fúria e no meio-ambiente em geral, fui tomado por uma pitada de sabedoria canina e me recolhi no meu canto. Cachorros são assim, quando se percebem “por baixo”, se afastam e vão lamber suas feridas, sejam elas físicas ou “psicocaninológicas”.

O que me chamava mais a atenção era que, mesmo percebendo o disparate que tinha feito, tinha uma sensação de “cheio de razão” que se contrapunha a qualquer lógica, mas era muito clara. Lambi, lambi, lambi e me pus a fazer a brincadeira da regressão.

Quando foi a última vez que me percebi assim? Qual foi o gatilho daquela situação? Ahhhhh… Então foi isso? E mais para trás, lembra de alguma outra situação? É mesmo? E como foi isso, o que te fizeram? E você não tinha outra forma de se defender? Coitadinho, foi duro mesmo, mas na verdade até dava pra fazer diferente, né?!

Mas, e será que não dá pra ir um pouquinho mais atrás? E bingo! Lá estava o garotinho encurraladinho no cantinho, com aquelas figuras enormes à sua volta… Fazer o que, só indo buscar essa força de super-homem para enfrentar aquela situação, e tem que ser à força, e machuque quem se machucar porque PRECISO sair dessa situação!

Estava lá o “cheio de razão”! E tinha razão mesmo e a forma que encontrou para se sair bem foi à força mesmo. Era o que dava para fazer naquela situação.

O caminho de volta é um contínuo desatar de nós que mal sabíamos que nos apertavam. Cada situação pode ser revista, reavaliada e podemos desvestir o monstro que nos mostramos em diversas situações; perceber que cada vez eu tinha mais recursos e não precisava daquela força toda…  E um após outro, vamos chegando de volta ao episódio presente.

E podemos silenciosamente sorrir de nossa infantilidade e chegar perto daquela pessoa ou pessoas que assustamos com nossa incoerência e violência e, com toda honestidade e verdade, nos desculparmos. Garanto, seremos aceitos de volta ao mundo dos civilizados…

 

Pagan Senior é engenheiro civil, com atuação institucional na área de Coleta Seletiva e Reciclagem na Cidade de São Paulo. É também ator diletante.

Pagan Senior escreve às quintas-feiras aqui no Universo Jatobá.

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