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POLIGLOTA, SER OU NÃO SER?

por Pagan Senior

Poliglota. Taí uma coisa que muita gente, pra não dizer toda gente, gostaria de ser. Fascinante dominar uma série de línguas, poder chegar em muitos lugares e se comunicar livremente com as pessoas. Maravilha. Só não é livre escolha.

Lembro-me muito bem quando meus pais, pessoas com formação escolar limitada em função de circunstâncias da vida que tinham tido em suas respectivas juventudes, resolveram aprender inglês e se matricularam numa boa escola especializada.

Meu pai, pessoa extremamente inteligente e estudiosa de tudo que lhe aparecia à frente, aprendia com a mente matemática que tinha. Dividia, somava, diminuía… Dividia as frases em palavras, classificava, arquivava. Na hora de falar ia buscar os arquivos, analisava as necessidades, escolhia as palavras, somava formando as frases… Quando terminava essa tarefa e ia abrir a boca para falar, percebia que o assunto já tinha mudado. E se calava. Mas, de fato, ele sabia muito inglês porque era um aluno aplicado.

Já minha mãe era diferente. Era ótima leitora, mas melhor faladora. Não escolhia nada; simplesmente abria a boca e falava. Tinha o que chamo de “curto circuito de amígdala”: Pensou-falou. E brilhava nas conversas e se comunicava certo ou errado, e afinal era entendida e aprendia dos erros e praticava errando sempre e afinal aprendendo. E aprendia rápido porque falava muito e ouvia de volta e assim ia. Surgisse uma nova língua, aprendia também seguindo o mesmo processo.

Porém, ser poliglota tem lá seus problemas. Conheço um casal já bastante idoso, ambos fluentes em pelo menos cinco línguas. Ocorre que já ultrapassaram os 90 anos de idade e algumas coisas começam a se misturar em suas cabeças. A coisa mais típica que lhes ocorre é falar numa determinada língua com um interlocutor – eu, por exemplo – numa língua que não entendo e no meio da frase dar-se conta de estar falando em língua “errada”, parar e dizer: “Onde estou com a cabeça?” e mudar para outra língua que também não entendo. (De tanto isso acontecer, já comecei a aprender essa outra língua!)

Mas tem uma questão que quero colocar, que é a questão da língua-mãe. Ouço falar dessa tal língua-mãe como sendo aquela primeira e que, querendo ou não, será usada nos momentos capitais.

Conheço uma mulher cuja língua-mãe, falada em sua casa desde seu nascimento,  é francês; foi alfabetizada e frequentou escola em português dos 6  aos 15 e na adolescência mudou-se para um país oriental, onde estudou, se graduou e exerceu profissão por décadas. Um belo dia, estando na companhia da mãe (francesa) e da irmã (com a mesma criação) num carro que começou a se incendiar. A mãe e a irmã, nos assentos da frente, rapidamente saíram. Ela, no banco de trás, não conseguia abrir a porta. E sabem o que ela gritava? “ – Mamãe, mamãe!”

Não era nem a língua que há décadas vinha praticando no trabalho, na rua, lendo jornais, língua na qual criou seus próprios filhos…  Nem a língua na qual foi criada, a língua com a qual se comunicava todos os dias com sua própria mãe – aliás, ali, presente naquele instante – e na hora H vai buscar “Mamãe, mamãe!!”???  Remeto o assunto aos profissionais de plantão.

 

Pagan Senior é engenheiro civil, com atuação institucional na área de Coleta Seletiva e Reciclagem na Cidade de São Paulo. É também ator diletante.

Pagan Senior escreve às quintas-feiras aqui no Universo Jatobá.

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