Pagan_onde_e_o_comeco

Onde é o começo?

por Pagan Senior

Ela entrou pela mão do meu filho, envergonhada, olhos baixos, tentando esconder tudo: os olhos azuis assustados, as mãos de dedos nodosos que os artistas têm, a cabeleira ruiva desgrenhada que lhe emoldurava o rosto comprido, os joelhos pontudos e tudo o mais que fosse possível esconder, inclusive a alma apavorada. Sentou-se tão no cantinho, mas tão no cantinho que, magrela como ela só, quase se fundia com a parede. Sorri, tentando apaziguá-la, coitadinha, nos seus 13 anos.

Dali à pouco aquela pinturinha estilo ilustração do Pequeno Príncipe entrava e saía de minha casa, com ou sem meu filho, sentava no seu cantinho de sofá, já não mais envergonhada e queria saber tudo sobre a vida em todas suas dimensões. Mais do que saber, ela queria ser sabida, ou seja, ouvida e recebida; e isso eu lhe dava, de verdade. Um belo dia, num arroubo emocional, me pediu para ser seu pai.

– Está bem, respondi, compreendendo que na prática isso não significava nada, mas simplesmente ela me dizia o quanto gostava de mim. E eu dela.

Tanto meu filho quanto ela eram jovens bastante livres e eu não sei em que ponto da adolescência eles estavam mas,  como era de se esperar, um dia tomaram cada um seu próprio caminho. Mas o carinho entre eles nunca terminou, nem o nosso, dela e meu. Vez por outra ela me ligava e perguntava:

– E como vai o meu pai?

Eu sorria prazeroso dentro de mim e conversávamos alguns minutos, cheios de carinho. Isso durou bastante tempo, até que os caminhos e descaminhos das nossas vidas, pouco a pouco, nos afastou.

Mais de uma década se passou quando numa manhã de domingo eu lia sentado num banco do Parque Villa-Lobos enquanto com o rabo dos olhos controlava onde andavam as bicicletas dos meus netos com eles próprios em cima, quando alguém se aproximou por trás e, sem eu poder sequer ver do que se tratava, atravessou-se no meu colo, envolveu-me com um abraço apertado quase me sufocando, dizendo:

– Meu paizinho querido!

Minha ruivinha querida sorria de orelha a orelha e ofegava de prazer por me surpreender. Não quis saber o que eu fazia ali, não me apresentou o homem que observava à distância de alguns passos. Só me beijou várias vezes enquanto nos olhávamos no fundo da alma. Prometemos entrar em contato, prometemos, prometemos e lá se foi ela, ainda magrela, ainda ruiva de olhos azuis, ainda parecendo uma ilustração de Pequeno Príncipe. Oh coisa querida!

Outra década se passou.

Semana passada estava mergulhado numa livraria da Vila Madalena pesquisando uns textos para teatro; fiz minhas escolhas e agora passeava entre as prateleiras deixando os olhos passearem também, esperando a chuva lá fora amainar, até que de repente um nome salta da capa de um livro e se projeta sobre mim.

Lá estava ela! Agarrei o livro, achei uma poltrona vazia e comecei a folheá-lo. Li tudo ali mesmo, entre longos suspiros para disfarçar soluços, a história da menina que encontrou um pai pelo caminho. Os soluços se transformaram em envergonhadas lágrimas que eu tentava disfarçar com fungadas de nariz. A atendente se aproximou e me tocou no ombro:

– O senhor está bem, precisa de alguma coisa?

Não tive como me esconder. Com meus olhos mareados, disse:

– Não, não, está tudo bem, às vezes fico um pouco emotivo com essas coisas…

Depois de uma pausa, arrematei:

– Obrigado, filha!

Só que esse último “Obrigado, filha” já não era mais para a atendente; era para aquela minha “pequeno príncipe” que, em sua sabedoria, ensina : “O começo é sempre o lugar onde a gente está quando encontra uma coisa importante. O começo é naquele instante.”

 

Pagan Senior é engenheiro civil, com atuação institucional na área de Coleta Seletiva e Reciclagem na Cidade de São Paulo. É também ator diletante.

Pagan Senior escreve às quintas-feiras aqui no Universo Jatobá.

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