Ujatoba_baianas

O homem põe, Deus dispõe

por Pagan Senior

Escrevi aqui outro dia (1) a respeito do meu parente canadense o Tio Willy. Homem esperto e instruído, conduzira sua vida de forma sábia e equilibrada para alcançar um final feliz. Sem filhos e tendo acumulado uma boa fortuna, desfrutava dessa condição viajando pelo mundo. E planejara até sua saída. Seu testamento deixava metade de sua fortuna para sua esposa e a outra metade para uma fundação voltada a bolsas de estudos avançados para estudantes promissores. Seu único irmão, mais velho do que ele próprio, não tinha necessidades e apenas um filho, um advogado por assim dizer remediado. O planejamento incluía a esposa, tia Noemi, que deixara o testamento “vice-versa”, metade para ele, metade para a fundação. Mais um detalhe: escolhera para testamenteiro a pessoa mais digna que conhecera ao longo de sua vida: meu pai. Pronto, esquema infalível, sem brechas, tudo ia funcionar quando chegasse a hora.

Eu tinha cerca de 17 anos quando o conheci. Dez anos se passaram quando veio a notícia: O casal falecera num acidente de automóvel. Aí meu pai tinha que entrar em cena, mas, com tudo planejado, não se anteviam percalços. Aí a surpresa: o sobrinho advogado remediado entrou na justiça alegando que, segundo ele apurara, o tio faleceu na hora, mas a tia só ao dar entrada no hospital e assim, segundo o testamento, a tia herdara a metade. Mas sua herança, como vimos, deixava metade para o marido, morto meia hora antes. Ai, ai , ai, ai, ai!! –  não tendo herdeiro especificado, ficaria para a descendência natural, ou seja: ele, sobrinho.

As partes se digladiavam já há 10 anos discutindo se o fato dela jamais ter recobrado consciência significava ou não que valia como se tivesse morrido ao mesmo tempo do marido;  consumia-se  energia, tempo e fortunas em advogados, perícias, laudos, custas e tudo o mais que existe na justiça tanto cá quanto lá. Tive que entrar em cena já que meu próprio pai não tinha mais saúde para cuidar de um processo a mais de 12 horas de voo de distância. Lá fui eu me reunir com advogados de parte a parte, o que me consumiria pelo menos uma semana. Meu pai indicou um conhecido seu para eu ter um mínimo de atividade social, um jantar, um lazer. Acontece que esse conhecido, após me conhecer, também fez alguns planos a meu respeito. Se você olhar minha foto aí ao lado, tirar uns anos, uns quilos e colocar um tanto de cabelos escuros, vai entender que ele me identificou como uma opção para sua filha de trinta e poucos anos, solteira, intelectual de esquerda – sarcasmo do pai- que na visão dele precisava ser “encaixada“ na sociedade.

Nada tendo a fazer à noite, aceitei convites para jantar e finalmente um cinema com a moça e seus amigos. Em minha homenagem, o filme escolhido foi Dona Flor e Seus Dois Maridos. Vale dizer a esta altura que, claro, Canadá era primeiro mundo e Brasil não, mas mesmo Toronto, a principal cidade, definitivamente  não era New York e muito mais fechada em seus conceitos e valores e pouco afeita a outras culturas. Tudo ia muito bem no filme, lindas pessoas, cenários coloridos e exóticos,  até que começam aparecer aquelas cenas de candomblé e Vadinho (José Wilker) incorpora e passa a conviver com Dona Flor (Sonia Braga). A moça, desconfiada, pergunta: Isso existe lá?!?  E o estranhamento só aumenta, alcançando o ápice quando Dona Flor pede um “trabalho” para fazer Vadinho ir embora e a imagem dele vai se esvaindo ao som dos atabaques. Aquela cena apavorou a moça de vez, a essa altura agarrada no meu braço e literalmente em cima de mim, para dizer o mínimo.

Resultado, ou melhor, resultados: a perspectiva de ir viver num país em plena ditadura e que ainda por cima tem mulher saindo de braços dados com dois homens, um deles pelado e lhe apalpando o traseiro à vista de todos???? Melhor ficar solteira num lugar pacato e seguro. Esses países tropicais são muito estranhos!!!  Até o pai deve ter concordado. No outro front tive que fazer um acordo com o safado do sobrinho advogado remediado que, bem ou mal, se remediou de vez. Pelo menos foi possível finalmente fazer deslanchar a fundação de apoio aos estudantes. E eu voltei lépido e solteiro para casa, com minha missão cumprida.

(1) – A vida sexual do Tio Willy

 

Pagan Senior é engenheiro civil, com atuação institucional na área de Coleta Seletiva e Reciclagem na Cidade de São Paulo. É também ator diletante.

Pagan Senior escreve às quintas-feiras aqui no Universo Jatobá.

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