Ujatoba_alemao

Entregou-se para o alemão…

por Pagan Senior

Giuseppe é Pepe, mas muitas vezes passa por Giuseppino e acaba em Pino. Esse era Pino. Chegou ao Brasil com 17 anos tão somente com o que Deus lhe deu: pouca instrução, nenhuma profissão, dinheiro só para o café da manhã, muita capacidade de observação e uma enorme vontade de vencer. Mais: um corpo forte e um sorriso contagiante.

Foi parar numa construção como servente de obra, em pouco tempo já era ajudante de pedreiro, mais um tempo pedreiro e dali a pouco chamou a atenção do empreiteiro, depois do engenheiro, depois do próprio dono da obra: Pino era incansável, esperto, inteligente e determinado. Aprendia e, mais do que isso, compreendia. Teve um emprego só, porque ninguém seria louco de deixa-lo ir.

Queria crescer. Hora extra para o dono da obra fazendo cobrança das prestações, para o empreiteiro indo buscar materiais numa bicicleta onde transportava de saco de cimento a barra de cano (acredite, é verdade), fazia bicos de arremates de pedreiro, encanador, eletricista, telhadista e tudo o mais que a oportunidade lhe apresentasse. E não decepcionava.

E queria mais. Com dinheiro emprestado do dono da obra comprou uma Kombi à prestação.

Duas viagens fazendo lotação clandestina do bairro para o trabalho, antes do expediente; duas viagens fazendo lotação clandestina do trabalho para o bairro, depois do expediente. Pronto, já tinha carro para carretos e mudanças no fim de semana.

Marieta lhe enchia os olhos. Era pra casar! Muitas outras não, que Pino era um mulherengo contumaz, mas Marieta era pra casar! E casaram. Na volta da igreja para a comemoração na casa da sogra, a família inteira na Kombi, a primeira briga. Cotovelos sobre a direção deitada da Kombi, buzinar para as morenas era um vício. Nem pensava e bi bi! e acompanhava com o olhar, sorriso nos lábios. Só que dessa vez Marieta estava ao lado. Praquê!! Quase deu divórcio sem casamento consumado.

Com o dinheiro do salário pagava as prestações, com os bicos se sustentava e com os desvios de materiais, trocos esquecidos, contas mal feitas e “otras cositas más” acumulava. Pegou obra “por conta”, virou “gato” (pequeno empreiteiro), abriu firma, participou de construções, já era proprietário não só de sua casa, mas também de empreendimentos. Seus filhos cresciam e frequentavam boas escolas.

Quem estiver afim de uma história de sucesso, pare por aqui. Senão, continuemos: Consequência de frequentar boas escolas, seus filhos frequentaram casas de classe média abastada, desenvolveram necessidades compatíveis com o meio que frequentavam. Pino, de sua parte, crescera no meio da carência e tudo o que conseguira fora poupando, deixando o supérfluo de lado. Como conciliar esta raiz com a situação de fartura atual? Não conseguia. E, como todos jovens rapidamente sabem mais que seus pais, contestavam seus critérios e suas regras. Os embates aumentavam a cada momento. E a dureza dos embates também. O desrespeito, a desarmonia, as queixas, as exigências eram o dia a dia. A violência estava a um passo. Junto, a impotência, a decepção, a frustração.

Seu filho homem, depositário inconsciente de todas suas esperanças de continuidade, se desviava desesperadoramente para uma vagabundagem explícita, simplesmente escorado na certeza de que Pino, mais dia menos dia lhe deixaria uma situação confortável. Era demais! Intolerável.

Pino foi radical; demorou, mas foi radical. Despediu todos empregados, vendeu todos os equipamentos, deu procuração total para Marieta, deitou-se no sofá e lá ficou assistindo a todos os programas da tarde na TV, só levantando para ir ao banheiro e descendo para dar uma volta com o cachorrinho uma vez ao dia. Aquele homem enorme, bonito, cheio de vida e alegria deitou-se no sofá e lá ficou, pacientemente esperando a chegada do alemão Alzheimer.

E quando este chegou, entregou-se mansamente. Esquecer tudo é o melhor para quem não quer ver o que tem para ver e desistiu de lutar…

 

Pagan Senior é engenheiro civil, com atuação institucional na área de Coleta Seletiva e Reciclagem na Cidade de São Paulo. É também ator diletante.

Pagan Senior escreve às quintas-feiras aqui no Universo Jatobá.

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