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Doce inutilidade

por Debora Ganc

Em uma tarde ensolarada, depois de muitos dias de chuva e frio, decidi caminhar um pouco na volta ao trabalho após o almoço. O próximo paciente era dali à uma hora, eu tinha um tempinho livre. Passei pela praça e me sentei em um banco. De um lado, muitas crianças, mães, pais, babás, brinquedos e, de outro, um grupo de idosos se reuniam em volta de um tabuleiro. Dois jogavam enquanto um grupo discutia a melhor jogada e outro grupo estava apenas sentado conversando fiado. Estavam todos muito animados.

“São aposentados”, pensei. E comecei a pensar sobre a velhice. Não como um fardo, muito pelo contrário. Percebi que a velhice nos traz direitos maravilhosos. A juventude é que é cheia de obrigações. Jovem não pode se sentir cansado. Não tem esse direito.

O idoso, ao contrário, pode se sentir cansado na hora que quiser, pode se deitar na hora que quiser, pode dormir na hora que quiser… O máximo que pode acontecer é alguém comentar: – “Não liga, não, ele tá velho”.

Temos uma agenda tão pesada que, muitas vezes, não temos nem o direito de adoecer.

A velhice é esse tempo em que temos o direito de viver essa doce “inutilidade”.

Por mais que a gente se torne um velhinho esperto, animado, não temos como fugir disso, mais cedo ou mais tarde na vida iremos experimentar este território desconcertante da inutilidade. Sei que a palavra ė pesada mas este é o movimento natural da vida.

Perder a juventude é também perder de alguma maneira a sua utilidade. É uma consequência natural da idade que chega. Vamos perdendo as habilidades e as destrezas da juventude e experimentamos esta inutilidade que a velhice proporciona. Acho isso bom, pois a utilidade é muito cansativa, trabalhosa. Podemos até nos sentir realizados sendo úteis, é interessante saber fazer as coisas. Mas cansa!

Quando envelhecemos, nos aposentamos do trabalho, mas não da vida. Na verdade, muitas vezes, é nesta  hora que começamos a exercer a nossa liberdade de ser. Podemos dar um cochilo depois do almoço, ir ao cinema em uma sessão da tarde, encontrar com os amigos no parque e jogar conversa fora e o melhor de tudo, se tivemos filhos e eles já nos presentearam com netos, podemos voltar a ser crianças e desfrutar desses encontros, voltar a brincar. Netos são um presente, sempre!

Quando a utilidade se vai voltamos a ser vistos e considerados como pessoas com um significado.

A maior benção é poder envelhecer ao lado das pessoas que amamos e nos amam. Pessoas que possam nos proporcionar a tranquilidade de ser inútil respeitando nosso valor. Acolhendo a nossa inutilidade com amor.

Se você quiser saber se o outro lhe ama de verdade é só identificar se ele seria capaz de tolerar a sua inutilidade.

Quer saber se você ama alguém? Então pergunte a si mesmo – quem nesta vida já pode ficar inútil para você sem que sinta o desejo de joga-lo fora? Assim descobrimos o significado do amor.

Só o amor nos da condições de cuidar do outro até o fim. Feliz aquele que tem a graça de no final da vida de ouvir:

- Eu não vivo sem você independente da sua utilidade!

 

Debora Ganc é Terapeuta Sistêmica, Constelações Familiares, Constelações Empresariais. Gestalt e Programação Neurolinguística. Contato: deboraganc@terapiasistemica.com.br

Debora Ganc escreve às quartas-feiras aqui no Universo Jatobá.