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De Príncipes e Cavalos

por Pagan Senior

Ela se sentou e contou: “Conheci um príncipe. Nos apaixonamos imediatamente e dali a pouco resolvemos nos casar com  cerimônia civil e na igreja, dentro dos conformes. Quando chegou o dia, meu príncipe – que era um romântico – resolveu ir a cavalo. Vestiu uma capa vermelha sobre os ombros e fez um caminho pelo parque. E veio a galope. Acontece que ele não viu um galho mais baixo de uma árvore e ficou preso nesse galho e o cavalo seguiu em frente e chegou até a igreja. Aí me casei com o cavalo. Só fui perceber isso quando tomei o primeiro coice. Foi uma bela patada! E o príncipe morreu seco no parque.”

História maluca, né? Pois é, mas acontece que essa história foi contada no contexto a que me referi em Acreditei (1), crônica que foi publicada aqui há algumas semanas. Tratava-se de um laboratório preparatório para uma montagem teatral. Cada um deveria contar 2 histórias, sendo uma verdadeira e uma falsa, porém deveria conta-las com a mesma credibilidade, ou seja, como se ambas fossem verdade. O problema é que a “outra” história que ela contou era MUUIIIITO mais absurda, razão porque concluí que esta deveria ser a verdadeira.

Fiquei sem entender por muito tempo; na verdade, se é que entendi, isso foi hoje.

Neste momento estou trabalhando nas pesquisas e preparação de uma montagem teatral do poema épico Mahabhârata, que é considerada a história da Índia, ensinada nas escolas e estudada por anos e anos pelos indianos de todas as  idades. Acontece que Mahabhârata é uma história que, para nós ocidentais, soa como uma fantasia:

Tem deuses que fertilizam humanas graças à invocação de um mantra; tem humano que de tão nobre emociona deuses, que lhe dão de presente o direito de escolha da hora de sua própria morte; tem virgem que reencarna guerreiro só para poder se vingar do príncipe que a rejeitou; tem crianças que nascem da divisão  de um feto morto em cem pedaços que foram  semeados e regados com o orvalho da noite.

Acha pouco? Então tem mais:  tem virgem tão casta que ao ser despida em público seus véus se multiplicam de tal forma que nunca terminam de se desenrolar do corpo dela; tem jogador de dados que não tendo mais o que perder,  joga e perde a si mesmo. Isso sem contar que os dois lados prontos para guerrear ficam esperando o líder de um dos lados –em crise existencial por se ver obrigado a combater seus familiares e mestres- ser convencido por um deus encarnado de que tudo bem mata-los um a um. E finalmente, ainda sob orientação dessa deidade, vence a luta se utilizando de um golpe baixo. Durma-se com um barulho desses!

E, não tendo outra alternativa, temos que mergulhar nessa história e extrair dela o significado e  o ensinamento. Isso me obriga a entrar num estado de aprofundamento e pesquisa em mim mesmo; aliás, a razão de ser de minha imersão no teatro. Então, metido nesse estado, leio a coluna da Debora, que escreve às quartas feiras aqui no Universo Jatobá (2). Ela conta a história do fulano que monta um cavalo desenfreado sem saber onde o cavalo o leva. E ela explica que esse cavalo é a força do hábito mas também  são nossas emoções.

Clic! A história do casamento com o cavalo começa a fazer sentido. Deem uma nova olhada lá em cima. Leiam com calma, eu espero. Não faz sentido? A história não começa a ficar menos fantástica?

O príncipe? Ora, o príncipe! Vocês devem conhecer mais de um caso de alguém que pensa casar com um e acaba casando com o sapo. Ou o cavalo, não é?

(1)   –  Acreditei

(2) –   Parar, acalmar e descansar – Parte 1 – Parar, acalmar e descansar – Parte 2

 

Pagan Senior é engenheiro civil, com atuação institucional na área de Coleta Seletiva e Reciclagem na Cidade de São Paulo. É também ator diletante.

Pagan Senior escreve às quintas-feiras aqui no Universo Jatobá.

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