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Ainda sobre sapos…

por Debora Ganc

Desde a alegoria da caverna de Platão passando pelas fábulas de La Fontaine, a linguagem simbólica sempre foi um meio privilegiado para fazer pensar e transmitir novas ideias e conceitos. A história que conto a seguir é de autoria de Oliver Clerc, escritor suíço, mas conto à minha moda.

Era uma vez em um reino bem, bem distante…

Um Rei que queria construir um castelo maior para sua linda esposa. Como não tinha recursos suficientes, pensou em aumentar os impostos, o que seria bastante impopular. Por sorte, o Rei tinha um conselheiro muito sábio que pensou em uma outra possibilidade de conseguir os recursos sem irritar os habitantes do reino.

Para convencer o rei, o  conselheiro propôs um experimento. Pegou uma panela bem grande, encheu de água, colocou um sapo dentro e  ascendeu o fogo embaixo da panela.

Com a água ainda fria, o sapo nadava tranquilamente. A água começou a esquentar lentamente, mas o sapo não percebeu a mudança da temperatura. Pouco a pouco a água foi ficando morna, mas o sapo até achou que estava mais agradável ainda e continuou a nadar.

A temperatura da água continuou subindo, agora estava quente, mais quente do que o sapo poderia apreciar. Então, ele sentiu os primeiros sinais de cansaço, mas mesmo assim ainda não se amedrontou.

Quando a água ficou muito quente, o sapo começou a achar desagradável, mas como já estava muito debilitado suportou e não fez nada. Até que a água chegou ao seu ponto de ebulição e o sapo acabou simplesmente cozido.

Ao contrário, diz o sábio conselheiro:

– Se o sapo tivesse sido lançado diretamente na água a uma temperatura de 50 graus, mais do que depressa e com um único golpe de pernas, teria pulado imediatamente para fora da panela.

Assim, meu conselho para sua majestade seria que aumentasse os impostos muito lentamente. Vai demorar mais tempo, mas ao final o rei terá os recursos necessários e o povo não se revoltará.

Esta fábula demonstra que, quando uma mudança acontece de modo suficientemente lento, escapa à consciência e não desperta, na maioria dos casos, nenhuma reação, oposição ou revolta.

Se olharmos para o que tem acontecido em nossa sociedade nas últimas décadas, veremos que estamos em um processo lento de mudança do nosso modo de vida.

Vivemos hoje com naturalidade uma quantidade grande de coisas que há 20, 30 ou 40 anos teria nos deixado horrorizados. Ou melhor, estas coisas que considerávamos horríveis hoje se tornaram tão banais que, se ainda incomodam alguém, deixam indiferentes a maior parte das pessoas.

Em nome do progresso, da ciência e do lucro, são feitos ataques contínuos às liberdades individuais, à dignidade, à integridade da natureza, à beleza e alegria de viver.

Todas essas mudanças de caráter ético foram feitas lenta e continuamente com a cumplicidade constante de suas próprias vítimas desavisadas, até chegarmos ao ponto de não sabermos mais como nos defender.

Quando algum “sábio conselheiro” tenta chamar a nossa atenção para os perigos que tais atitudes representam para o futuro do planeta e seus habitantes, ao invés de despertar qualquer reação ou medidas preventivas, acabamos aceitando essas condições de vida, sem luta por absoluta inércia .

A mídia nos martela incessantemente com informações conflitantes que saturam nossos cérebros, que, por sua vez, passam a não conseguir mais distinguir as coisas.

A primeira vez que li esta fábula pensei que este seria nosso futuro. Infelizmente, é nosso presente. A não consciência infecta nossa saúde, nossas relações, a evolução social e o meio ambiente.

Cabe a cada um de nós a escolha entre ser consciente ou morrer cozido. Ainda é tempo de pular fora desta panela de água quente!

 

Debora Ganc é Terapeuta Sistêmica, Constelações Familiares, Constelações Empresariais. Gestalt e Programação Neurolinguística.

Debora Ganc escreve às quartas-feiras aqui no Universo Jatobá.

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