Acreditei

por Pagan Senior

É sempre relativo se algo é bom ou ruim. Não há regra, depende de nosso olhar.

Recentemente participei de uma peça teatral que tratava de um personagem que tinha a tendência de acreditar em histórias fantasiosas. À título de laboratório foi  proposto que cada um trouxesse uma história na qual tivesse acreditado.  A minha foi essa:

Eu morava num prédio que tinha um pequeno estacionamento nos térreo. A parede do fundo dessa garagem era o gol para onde eu chutava furiosamente minha bola, vivenciando a minha “final de campeonato”.

Naquele dia, no meio do meu jogo solitário apareceu aquela mulher que me disse que eu não podia chutar bola porque o marido dela estava dormindo.

– “Ora” , disse eu sem parar de chutar, “por que ele está dormindo se já é de dia?” .

– “Porque ele trabalha de noite”, respondeu ela.

Parei no ato, estupefato diante daquela realidade que nunca tinha imaginado:

– “E por que ele trabalha de noite?”.

Impaciente com minha insistência, antes de virar as costas e ir embora, ela atirou:

– “Porque ele vende fósforos!!!”

Quando, triste mas conformado, contei o ocorrido para o meu irmão mais velho, ele disse:

– “Não ligue; venha comigo que enquanto eu faço cocô vou te contar uma coisa que eu descobri!”.

Pois pelos próximos 20 ou 30 cocôs do meu irmão, ele me explicou que a bomboniere da Dona Cecília –“aquela da Julio de Castilhos, depois do bar, da loja de tecidos e da casa da professora de piano, não era a bomboniere de verdade”.

A verdadeira ficava em algum lugar naquele trecho, mas por baixo do chão e o acesso era por um buraquinho da calçada que ninguém conhecia. Dentro da bomboniere aconteciam aventuras incríveis envolvendo gentes e bichos de todas espécies, que disputavam territórios, rios, água, comida, amores  e poder. Havia festas e havia brigas. Havia bichos que se perdiam e depois eram resgatados, havia aves que caiam e se machucavam e depois eram tratadas e curadas. Às vezes eles até morriam.

Depois de estender essa história até não ter mais imaginação para inventar continuação, um belo dia, constrangido, meu irmão me disse que” tinha uma notícia muito triste pra me dar: tinha tido uma grande luta entre os bichos  e os elefantes enfurecidos  tinham arrebentado tudo e os bichos tinham ou morrido ou fugido”. Angustiado eu o segui pela Julio de Castilhos até um grande buraco na calçada onde trabalhavam alguns homens. Examinei aquele buraco e constatei que realmente não havia mais bicho nenhum. Quis fazer perguntas para os homens, mas meu irmão não deixou, pois eu “não podia revelar aquele segredo pra mais ninguém”.

Fiquei triste, muito triste; mais do que isso, fiquei arrasado, inconsolável. Vendo meu estado, meu irmão me chamou e contou que era tudo mentira, que não tinha nada daquilo, que não tinha bomboniere nenhuma debaixo do chão, que aquele buraco era um conserto da prefeitura, que não tinha bichos, nem rios, nem nada de nada.

Não me lembro de, em qualquer instante, ter ficado chateado com meu irmão por ter mentido para mim por dias ou semanas, mas nunca perdoei ele ter desmanchado aquela fantasia que me alimentou tanto a imaginação. O que é bom, o que é mau? Não sei, só sei que a peça ficou ótima, cheia do rico material que trouxemos.

 

Pagan Senior é engenheiro civil, com atuação institucional na área de Coleta Seletiva e Reciclagem na Cidade de São Paulo. É também ator diletante.

Pagan Senior escreve às quintas-feiras aqui no Universo Jatobá.

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