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Uma sonhadora que, mesmo sem ver o mundo em sua plenitude, tenta enxergar além dos obstáculos – Parte 1

por Dolores Affonso

Quem sou eu? O que falar de mim? É difícil falar da gente, não é mesmo? Mas vamos lá!

Antes de falar da minha história, que é como a de cada um que venha a ler este artigo, quero falar sobre o que sou por dentro, o que levo dessa vida. Eu gosto de dizer que todas as pessoas são únicas, diferentes e que cada uma delas carrega consigo um imenso potencial de superar as limitações que todo ser humano tem. Limitações essas que podem ser de natureza física, emocional, intelectual, psicológica, social, econômica, não importa. Seja a timidez (o medo de falar em público, por exemplo) ou a falta de um membro ou sentido, todos possuem deficiências, limitações, medos. Por isso, acredito que todos podem superar suas limitações com a tecnologia certa, a orientação adequada e muita força de vontade e determinação. Mas o mais importante são os sonhos que todos levamos dentro de nós. Por isso, me identifico muito com uma frase de Walt Disney que diz: “Se você pode sonhar, você pode realizar”.  Ele diz ainda que, além de sonhar, podemos criar e construir o mundo que queremos, mas que precisamos de outras pessoas para fazer isso. E que é preciso parar de falar e começar a fazer.  Entretanto, não podemos deixar os nossos medos tomarem o lugar dos nossos sonhos.

E é assim que levo a minha vida: sonhando e realizando os meus sonhos e os de muitas pessoas que, como eu, sonham com um mundo melhor.

 

Os sonhos realizados

Para que possam me conhecer um pouco mais, sou formada em Administração de Empresas com MBA em Marketing e pós-graduada com Especialização em Design Instrucional, EaD e Educação Especial e Inclusiva. Tenho uma empresa de consultoria, onde ajudo empresas, instituições, governos e pessoas no processo de inclusão. Sou professora na Fundação Getúlio Vargas e atuo como voluntária em projetos de acessibilidade e inclusão. Com o objetivo de realizar os sonhos que falei antes, criei o Congresso de Acessibilidade em 2014, que já está na sua segunda edição. Mais recentemente, criei uma revista digital gratuita, onde você pode acompanhar tudo sobre acessibilidade e inclusão num só lugar. Lá reunimos diversos conteúdos de forma gratuita e acessível, inclusive meus artigos aqui do Universo Jatobá!

Sou carioca, mas busquei refúgio no interior e hoje moro na região serrana. Empreendedora, escritora, palestrante e o mais importante, para mim, educadora. Num pais tão esquecido da educação, disseminar uma educação inclusiva e para todos é um sonho que venho realizando com a ajuda de muitas outras pessoas mundo afora.

Minha trajetória

Mas deixe eu te contar um pouco da minha história. Sou deficiente visual (baixa visão). Atualmente, possuo cerca de 3% da acuidade visual, decorrente de uma doença degenerativa da retina chamada Stargardt. Uma doença genética e, até o momento, sem cura. Nasci com ela, mas a manifestação do início da perda da visão se deu entre sete e nove anos. No começo, não sentia nada, apenas a luz me perturbava um pouco os olhos. Fui crescendo e, no ginásio, as dificuldades começaram a aparecer. Inicialmente, como minha mãe e algumas irmãs tinham miopia, achamos que fosse isso. E seguimos em frente, esperando uma oportunidade para fazer um par de óculos. Minha família tinha poucos recursos e tínhamos que esperar. A visão ia piorando a cada dia e eu ia sentando cada vez mais perto do quadro negro. Mas logo, isso não adiantava mais e passei a pedir aos colegas para lerem a matéria no quadro para que eu pudesse copiar. Como sempre, encontrei muitas pessoas boas em meu caminho e ia levando, copiando dos colegas que me ditavam as matérias. Quando o professor ditava, era ótimo. O problema maior era nas aulas de matemática, física, química, geografia, que tinham fórmulas, mapas, imagens, não apenas textos para copiar. Então, eu pedia permissão e me levantava, indo até a frente do quadro para copiar. Ficava lá em pé por muito tempo, sendo alvo de piadas e bolinhas de papel, mas eu não ligava. O importante era poder copiar. Por isso, aprendi a escrever muito rápido e com vários códigos que só eu entendia. Para agilizar ainda mais a escrita e poder sair daquela posição ruim, pois atrapalhava a visão dos colegas. Lembro-me que havia professores que não permitiam, então eu não copiava e esperava o final da aula, quando o professor não apagava o quadro, para copiar, antes do início da próxima aula. Quando isso não era possível, eu pedia emprestado o caderno de algum colega para copiar rapidinho antes de ele ir embora. Nem sempre dava, é verdade. Mas ia me virando.

As dificuldades aumentavam a cada dia. Lembro-me de uma situação, no final do ginásio, durante uma prova, em que eu não conseguia ler nada no quadro e pedi à diretora que tomava conta da turma, para me ditar a prova escrita no quadro. Ela se negou. Eu expliquei minha situação e recebi a resposta de que minha mãe tinha que comprar óculos para mim se eu não enxergava bem. Retruquei, mas ela foi irredutível, dizendo que eu estava fazendo “corpo mole” por não saber a matéria. Como eu sempre tive boa memória, fui escrevendo tudo o que sabia da matéria na folha em branco. Escrevi frente e verso, tudo o que conseguia lembrar da matéria. Por fim, ao receber a prova alguns dias depois, percebi que levara um enorme zero! Com uma frase que jamais esquecerei: “Acha que escola é brincadeira?” Para encurtar, minha mãe teve que ir à escola para conversar com o professor e a diretora, informar que eu tinha um problema de visão e que não podia comprar óculos e que era um absurdo o professor não levar em consideração o que eu tinha escrito. Ele alegou que eu não tinha respondido às questões propostas. Minha mãe então disse: me diga as perguntas da prova que eu lhe direi a resposta que minha filha escreveu na prova. E assim foi feito. Ele ia dizendo uma pergunta e eu mostrava partes do texto que respondiam ao questionamento. Por fim, o professor teve que aceitar que eu havia respondido às questões, mesmo que fora de ordem e acabou por aceitar minha prova e me dar nota 10. Fiquei muito feliz. Mas nem tudo foram flores…

Isso eu te conto no próximo artigo!

Com deficiência visual, Dolores Affonso é coach, consultora, professora, palestrante e empresária. Formada em Administração de Empresas com MBA em Marketing pela FGV. É especialista em Marketing, Design Instrucional, Ensino a Distância e Educação Especial e Inclusiva. Consultora em acessibilidade e Professora na Fundação Getúlio Vargas. Idealizadora do 1º Congresso de Acessibilidade gratuito e online do Brasil. Diretora-proprietária da Affonso & Araujo Consultoria, que atua, desde 2003, na implementação de projetos de inclusão de pessoas com deficiência.

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